Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quinta-feira, 6 de outubro de 2011

oásis

No silêncio da tarde, me dirijo à cozinha para tomar água. É quando percebo o que tenho. Sob a transparência do filtro comum, azulado, adquirido com zelo, a água repousa em sua placidez. Aberta a torneira, no copo vibra a água, fazendo valer seu valor de líquido ― líquido, conforme aprendi na escola, insípido, inodoro e incolor. Nenhum dos três adjetivos, essencialmente de negação, faz jus à água. A água sabe de longe a oásis, traz o frescor das coisas que se conquistam com meditada paciência ― a água que se toma para saciar a sede própria do que é vivo. 

4 comentários:

Menina no Sotão disse...

E eu que estou voltando a baila, depois de uma pausa, me vejo diante de um lago a beber de forma a saciar minha sede, mas não é água exatamente que bebo...

bacio

Mariana disse...

:) pra você ver que um copo d'água me contenta, e não é pouco...

mas...

... mas queria poder ir mais longe com as palavras, muito mais, para conseguir dizer todo o bem que essa água me faz.

abraço.

Celso Mendes disse...

água sempre me leva a pensar em vida. adorei o texto. aliás, por coincidência, imediatamente antes, lia, no blogue da Sylvia Beirute, o seguinte poema:

JOANA ESPAIN - POEMA
De qualidade inquestionável a poesia de Joana Espain.

daqui são dois pés
de substâncias amedrontadas
seguem-se de pequenos
não de sustentarem agudos das gaivotas
a chamar a sombra dos chapéus antigos
às mesmas paredes
mais o quê
não há mais água
a água lembra-se de toda a água que já foi
até voltar a ser-nos
(ouvi o mar ter conversas estranhas com a água dentro de mim
à janela redonda do décimo andar de um navio)
estou envolvida com outra coisa
se é um bicho sozinho no universo
no instante de uma cereja
a imaginar
para passar de me cair
(nem vazios que saibam coser)
caio-me mais do que me quero
onde só precisávamos de ver o chão
muito antes do tempo de dois pés

beijo.

Mariana disse...

Prezado Celso, agradeço imenso este poema, pois ele, em sua singela e delicada percepção da natureza, traz uma imagem que tinha comigo ao escrever, mas escapou por completo. Os versos:

"a água lembra-se de toda a água que já foi / até voltar a ser-nos"

E o que vem em seguida, o mar dialogando com a água que se traz em si.

Quantos mares já girou a água que bebemos? O carpe diem num copo de água, ou de mar. Lembro aqui o belíssimo verso de Jorge de Lima, que serviu de mote para a última bienal: "Há sempre um copo de mar para um homem navegar."

Abraço.