Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 8 de outubro de 2011

Guenádi Aigui

ROSA DO SILÊNCIO

e agora
o coração
ou apenas ausência
uma vacância tensa ― como quando arrefece
aos poucos
à espera
o sítio da prece
(o puro ― permanência ― no puro)
ou ― aos arrancos a incipiente dor
(ou ― às vezes possivelmente
dói ― à criança)
frágil desnudo-viva
qual impotência de pássaro

Poesia russa moderna. Trad. Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman. São Paulo: Perspectiva, 2001, p.390.

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