Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


terça-feira, 4 de outubro de 2011

vida imitando a arte

Se não entendo um conto de Julio Cortázar, porque é que preciso entender a vida?

6 comentários:

Zé alberto disse...

olá Mariana, Córtazar, autor que me apanhou nos seus braços através do seu estilo "dadaísta" em «A Volta ao Dia em 80 Mundos», passou a ser um dos "meus autores".
Gostava muito de conhecer os pontos de vista da Mariana sobre este autor, não sei se já os expôs aqui no blog...

Abraço.

Marcantonio disse...

Eu já me perguntei se essa vida que opomos à arte não é ela também ficção. Afinal, pegamos algo incomensurável de que fazemos parte e com uma artifício invertemos essa relação e colocamos a vida no bolso como parte de nós. E como se fosse um pão, pegamos dela um pedaço e engolimos: agora a arte está fora da vida que está no meu bolso, parte do meu vestuário, e a arte está dentro de mim, além da vida. E para completar, ainda digo que o corpo é meu, não sou eu, eu estou então além da arte e da vida. Neste modo, tudo é perfeitamente compreensível em planos separados. Tanto posso dizer que a vida imita a arte, ou que a arte imita a vida.
Porque é uma tragédia o sujeito, o eu, não, poder prescindir da compreensão, e talvez seja esse o sentido do tal fruto da árvore do conhecimento, da perda de uma naturalidade: estarás apartado do dinamismo das coisas, inventarás a coisa em si, não estarás imerso no fluxo da vida, estarás sempre de olho num periscópio procurando a verdade que te libertará.
Talvez eu assim entenda a questão do dionisíaco, arte que faz parte do metabolismo da vida; incompreensível porque gerada no incompreensível. E apolínea é a representação, a separação, a cultura que cria o conceito de natureza para opor a si mesma aquilo que é dela a própria base.
Que incrível seria uma linguagem onde não houvesse os verbos ser e estar, porque a existência não precisaria ser afirmada pela própria linguagem.

Enfim, só fingimos entender a vida e a arte, e tudo isso pra nossa proteção, como dizia o Plebe Rude.

Abraço.

Mariana disse...

Zé Alberto, também o Cortázar é um dos meus autores, mas li pouco dele, relativamente. Este livro que você menciona, "A volta ao dia em 80 mundos", eu ainda não li. Ainda. Os contos são perturbadores. A gente lê, lê, lê, e sai com a sensação de que está vendo o mundo através dos cacos de um espelho (cada caco de um espelho diferente).

Se chego a ter um ponto de vista sobre Cortázar? Não sei. O que sei dele se apoia em Borges, que eu li mais, e mais a fundo, e naquilo que a gente estuda como "realismo mágico", uma espécie de feição que assumiu certa vertente da literatura latino-americana, a ponto de ter se falado em "boom" a propósito de Gabriel Gárcia Marquez e o estrondoso sucesso de "Cem anos de solidão", por exemplo, um livro imperdível, fabuloso. Gárcia Marquez inclusive ganhou o Nobel. "Cem anos de solidão" foi dos melhores livros que já li na vida, e um outro dele, "Crônica de uma morte anunciada", também é muito bom.

Então, até onde sei, o Cortázar pertenceria a essa vertente do realismo mágico hispano-americano, que são narrativas mais ousadas no aspecto lógico. No Brasil, o exemplo sempre citado é Murilo Rubião.

O trecho a seguir de "O jogo da amarelinha", que é um romance fantástico, sem trocadilho, dá uma ideia deste aspecto não-lógico, que é completamente diferente da paranoia que assalta as personagens de Machado de Assis, por exemplo:

"Uma das notas aludia suzukianamente à linguagem como uma espécie de exclamação ou grito que vem diretamente da experiência interior. Seguiam-se vários exemplos de diálogos entre mestres e discípulos, completamente incompreensíveis para o ouvido nacional e para toda a lógica dualista e binária."

CORTÁZAR, Julio. O jogo da amarelinha. Trad. Fernando de Castro Ferro. 15 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, p.491.

Olha, eu acho que quanto mais a gente gosta de um autor, mais difícil fica falar dele. Então, como sei que esse meu blá blá blá não chegou a configurar um ponto de vista, proponho que, à medida que você e eu formos lendo os livros do Cortázar, vamos trocando impressões acerca de sua obra. Ok?

Abraço.

Mariana disse...

Prezado Marco: essas questões são bastante sofisticadas, e talvez eu devesse ter posto um ponto de interrogação no título da postagem para não passar a impressão de estar endossando uma noção cristalizada, ou irrefletida. O Monteiro Lobato publicou um conto meio esquisitão chamado "Meu conto de Maupassant". O Lobato sempre foi um realista, eu diria mesmo um sujeito assustado com o que via. O tal conto termina citando Oscar Wilde:

― ”Meu caro, aquele pobre Oscar Fingal O’Flahertie Wills Wilde disse muita coisa, quando disse que a vida sabe melhor imitar a arte do que a arte imitar a vida.”

Dentro do paradigma do realismo, isso seria um princípio anti-realista. Em pleno alvoroço das vanguardas e de crise do realismo, o Lobato escreve uma história horripilante e arremata com essa pérola do triunfo da vida sobre a arte.

Bem, aqui devo dizer que meus conhecimentos sobre a questão têm sido para o gasto. Mas presto atenção na arte. A arte me intriga, me deixa perplexa, confusa. A vida também.

De modo que o pretendi no meu post tem mais de brado que qualquer outra coisa: não cheguei a opor vida e arte. Antes, vendo-as tão siamesas que, como quem sacode de repente um fardo dos ombros, dei a entender que estou fatigada de tentar entender a vida. Como se estivesse dando um basta a essa hermenêutica aparentemente sem fim que nos exige o estar na vida.

Ficções sim, claro, a vida é um jogo ficcional (e fictício). O problema é tentar entender. Há uma educação voltada para o entendimento, a decifração, o código. Falava disso, desse cansaço.

No mais, o que você diz, como sempre, pede atenção meditada. Me parece que as pessoas desenvolvem relações sui generis entre vida e arte. Eu vou dando meus passos. Como diz um conto do Guimarães: "Sorte? A gente vai - nos passos da história que vem. Quem quer viver faz mágica."

De fato, é uma tragédia estar sempre às voltas com a busca da compreensão. Por outro lado, essa árvore do conhecimento é o nosso mito fundador, junto com Prometeu, ela é enigmática e desafiadora. Creio que faríamos o mesmo que Adão. Toda a nossa tradição se apoia nesse saber em camadas, e por isso um conto incompreensível (falo de mim, evidentemente) pode ser uma libertação, sinalizando que não dá para entender mesmo. Bem, divago...

Que incrível seria uma linguagem que pudesse representar abrigo, proteção. A linguagem parece ter sido feita para expor o tempo todo o outro, pois assim é mais fácil a tarefa da dominação, e Caim continuará pelos séculos matando Abel. Quem sabe por isso a existência precisou se insinuar na linguagem.

Abraço.

Zé alberto disse...

Obrigado, Mariana, pelo seu comentário, pela sua disponibilidade.

Encontrei este estudo sobre «O Lúdico na literatura de Cortazar», deixo-o aqui e vou também dar uma vista de olhos pelas teses aqui desenvolvidas.

http://www.faap.br/revista_faap/revista_facom/facom_16/neiva.pdf

Vou adquirir mais um livro de contos de Cortazar, para poder ir formando uma ideia mais sólida sobre a sua escrita, depois sigo a sua sugestão e troco impressões com a Mariana acerca do tema.

Citei este autor - no prefácio que escrevi para o volume de histórias que pretendo editar - como uma das fontes em que bebi para o desenvolvimento das histórias que compilei para posterior edição, mas encaixei-o na prateleira do "Pícaro"; creio, contudo, que vou ter necessariamente que alargar o âmbito da influência de Cortazar para o carácter "absurdo" das posturas humanas que relato nas referidas histórias.

Outro autor a que dei a mão, numa história que já havia escrito há muitos anos foi Eça de Queirós, o Burlesco de Eça que, segundo me dizia um amigo, é o tom que melhor se ajusta à minha forma natural de desenrolar um quadro narrativo.

Abraço.

Mariana disse...

Prezado Zé Alberto: então ficamos assim, combinados.

Estou sempre disponível quando o assunto é literatura, vou logo puxando a cadeira e sentando.

Agradeço o link do estudo, vou dar uma passada de olhos nele. Também vou ver se continua a leitura de "O jogo da amarelinha", para agregar mais elementos à troca de impressões.

Acho que seu palpite está certo, quanto à nuance entre pícaro e absurdo no que tange à literatura de Cortázar.


Abraço.