Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Alexei Bueno

A verdade da morte não nos serve
Como não serve um manto
De rasgos sorridente
No carrancudo inverno.

Assim também dos deuses a verdade
De eles serem mentira,
Caso o sejam, não vale
O preço de a encontrarmos.

Antes, no nosso sonho, tão maiores
Que o Estige e que Caronte,
Vivamos, não no que há,
Mas no que haver devera.

E, cumpra-se ela ou não, vestindo a túnica
De uma talvez mentira
Mas áurea, ao chão joguemos
Os trapos da verdade.

Para rijos cruzarmos o árduo tempo,
Quais deuses, quais os sábios
Deles iguais, que o reles
Não sabem conhecer.

BUENO, Alexei. Poemas gregos. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003, p.193-194.

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