Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 8 de outubro de 2011

Julio Cortázar

Um trecho, dos mais líricos e sutis de Rayuela ― impossível não rir ironicamente do destino, quando se jogou amarelinha na infância, sem saber nada além de um mundo chamado infância:

“O jogo da amarelinha se joga com uma pequena pedra que é preciso empurrar com a ponta do sapato. Ingredientes: uma calçada, uma pedrinha, um sapato e um belo desenho feito com giz, preferivelmente colorido. No alto, fica o Céu, embaixo a Terra, é muito difícil chegar com a pedrinha ao Céu, quase sempre se calcula mal e a pedra sai do desenho. Pouco a pouco, porém, vai-se adquirindo a habilidade necessária para salvar as diferentes casinhas (caracol, retângulo, fantasia, esta pouco usada) e um dia se aprende a sair da Terra e levar a pedrinha até o Céu, até entrar no Céu (Et tous nos amours, soluçou Emmanuelle de bruços); o pior é que, justamente nesse momento, quando quase ninguém ainda aprendeu a levar a pedra até o Céu, a infância acaba de repente e se chega aos romances, à angústia do divino foguete, à especulação de outro Céu ao qual também é necessário aprender a chegar. E, por se ter saído da infância (Je n’oublierai pás les temps des cérises, cantarolou Emmanuelle, estendida no chão), esquece-se de que, para alcançar o Céu, é preciso ter, como ingredientes, uma pedrinha e a ponta de um sapato.”

CORTÁZAR, Julio. O jogo da amarelinha. Trad. Fernando de Castro Ferro. 15. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, p.253-254. 

2 comentários:

Zé alberto disse...

Olá Mariana, vou tentar encomendar hoje aqui na loja de Fnac esse livro na edição brasileira. Estou a apreciar bastante o que se passa nesse que dizem ser o ponto mais alto na obra do escritor argentino.

Pelo que tenho lido aqui e no estudo que partilhei com a Mariana, não posso deixar de dar a mão a esta obra de conteúdo tão estimulante.

Nabokov e esse «O Desespero» são também uma novidade para mim; tinha já ouvido falar do aspecto inovador da sua escrita, por isso quando na Fnac me sugeriram a aquisição desta obra, não hesitei. Ao ler essas linhas, vou-me recordando do estilo da escrita de Gogol. Muito peculiar.

Abraço.

Mariana disse...

Zé Alberto, de fato é um livro único, e só por isso já vale a empreitada. Eu ouvia dizer que se tratava do Ulisses da Argentina: só se for no quesito ousadia formal, pois, no restante, a proposta é outra, mesmo porque se trata de uma escrita a partir de outro lugar.

Como te disse em outro post, a edição brasileira que tenho em mãos apresenta alguns pequenos problemas de revisão, mas até onde sei é a única disponível no mercado, e basta um lápis e o confronto com o original para resolver pequenas pendências.

http://www.latejapride.com/IMG/pdf/rayuela.pdf

Inclusive, neste blog dedicado a Cortázar ela estampa os comentários sobre o livro:

http://blogmorellianas.blogspot.com/2011/02/o-jogo-da-amarelinha-ii-salteado.html

http://blogmorellianas.blogspot.com/2010/08/o-jogo-da-amarelinha.html

Na verdade, o blog morellianas foi a fonte mais completa que encontrei até agora sobre Cortázar, e por isso recomendo vivamente uma passada de olhos:

http://blogmorellianas.blogspot.com/

Espero que corra tudo bem junto à Fnac. De minha parte, vou conferir o estudo que você me recomendou.

Abraço.