Ontem, enquanto voltava, presenciei, pela tangente, um por do sol nunca antes assim entrevisto. Eu tinha, do ônibus, uma fração de paisagem que se movia em lentidão, e então, quando parecia que o sol já havia se posto, percebi, entre ou além dos prédios, um amarelo intenso no céu, filtrado pelas árvores, que pareciam cintilar. Claro que o contraste imediato foi a iluminação artificial do Natal, reservada para a noite. Aquela cintilação momentânea, criada por uma conjunção especial de horário, lugar, olhar, disposição da paisagem, de um amarelo ouro vibrante e intenso, era um presente da natureza a quem se dispusesse a tirar os olhos do aqui e agora. Pensei também que fenômeno tão belo não combinava com a palavra crepúsculo.
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Dora Ferreira da Silva
DISSE A SOMBRA...
Disse a sombra ao sol: “Eu passo”
E ele ― rubicundo de mormaço ―
responde: “Mais devagar também caminho
enquanto alongas tuas pernas desmedidas.”
Ao meio-dia diz a sombra: “Em ti dormito,
oculta em teu novelo de verdades
tão claras, que o olhar dos homens velas.”
“Em mim dormitas?” diz o sol zangado.
“E eu pensando ser a luz tamanha
que sombra alguma em mim repousaria
antes da negra noite apagar meu dia.”
Dora Ferreira da Silva. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.334.
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
rio de janeiro
Hoje escolhi um trajeto alternativo para voltar para casa, em parte por falta de disposição de me dirigir até o Centro, em parte porque me atraía a ideia de passar pela orla. Levei três horas e meia para chegar em casa. Um simples Natal traz o caos para o trânsito da cidade. As autoridades estão assegurando que vão resolver os problemas de infra-estrutura até os dois eventos esportivos que a cidade vai sediar. Isso é bastante questionável. As ruas e avenidas desta cidade ainda vivem no tempo da Bossa Nova, para que a garota de Ipanema possa passar devagar. Um enorme congestionamento se forma na orla para que os veículos possam entrar na Avenida Niemayer. São cinco pistas de dois afluxos que precisam virar uma pista única, numa espécie de funil sem sinalização. Os veículos vão se amontoando. Depois disso, novas retenções. Na altura do bairro classe média alta que vem depois do elevado do Joá, ouvi o motorista dizer que não entendia como as pessoas conseguiam viver lá, pois estão presas pelo trânsito. Palavras dele: prisão domiciliar. Estava anestesiada pela lentidão, levei alguns segundos para entender. Apesar de tudo, como a geografia desta cidade é bela! Não as praias lotadas, um tanto largadas, com um jeitão de improviso. A geografia mesmo, as formas da natureza em contraste com algumas soluções bem-vindas de urbanização. Algumas.
trainspotting
E por falar em cinema, comecei a assistir Trainspotting, mas tive que dar o pause logo numa das cenas iniciais. Estava de estômago cheio. O filme terá que aguardar na fila uma outra oportunidade.
cinema
Ao ver proliferar em blogs e sites especializados em cinema as listas dos mais mais de 2011, dou-me conta de que não fui, metonimicamente falando, ao cinema neste ano que ora finda. Nem tentei trazê-lo até mim, assistindo a filmes e filmes em casa. Assisti sim a muita coisa, desde que não se estabeleça como parâmetro os longas. Vi curtas como nunca, e o blog é um testemunho disso. Pequenos prazeres, sem o desconforto da bilheteria e do barulho das sacolas de pipoca. Dos poucos longas a que assisti, em casa, marcou-me em particular A Liberdade é Azul, bem como ter revisto Minha Vida de Cachorro. Há muitos longas a que quero assistir, mas isso não tem nada a ver com os filmes que a indústria do cinema escolhe anualmente para que eu veja. Há filmes incríveis ao alcance da mão (cada um tem o seu rol de imperdíveis ou obrigatórios), mas posso pensar no cinema como uma variante da leitura.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
temporal
Lá fora a natureza está fazendo barulho, anunciando-se por relâmpagos, trovões e chuva forte. E então penso como é boa a circunstância de estar em casa no momento em que chove com essa intensidade, usufruindo o lado bom da chuva (considerando que, numa cidade... aquilo que todo mundo já sabe).
pronome indefinido
Sei ser ninguém ― enunciado de duplo sentido, agora o percebo, depois de ter escrito. Ser ninguém é um aprendizado. Sem escrever, a sensação de nulidade é tão forte que me vejo compelida a preencher linhas com palavras. A brancura do papel até pede nobreza, e então, reconhecendo minha nulidade, eu deveria silenciar. Mas é a nulidade que me impulsiona para a escrita. Penso às vezes no que alcançaria se conseguisse verdadeiramente escrever.
Emily Dickinson
Deus tudo fez por um motivo,
E um plano deu às almas,
Nossa inferência é prematura,
Nossas premissas falsas.
God made no act without a cause,
Nor heart without an aim,
Our inference is premature,
Our premises to blame.
DICKINSON, Emily. A branca voz da solidão. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2011, p.154-155.
domingo, 18 de dezembro de 2011
chuva...
Amanheceu chovendo, leve, leve, quase um murmúrio da natureza, trazendo-me aquela sensação única de mansidão que percebo na chuva, na chuva que trago em mim... E esse murmúrio equivale ao que escrevi ontem falando da brisa, senão à própria brisa, à leveza que nela entrevi ao falar das estações. A deusa me ouviu.
sábado, 17 de dezembro de 2011
brisa
Depois de um dia de calor intenso e abafado, a madrugada permite o frescor de uma leve brisa. Não há mais qualquer dúvida de que é verão no Rio de Janeiro ― sei que é verão quando começo a sentir saudade das estações mais amenas. A culpa é toda de Hades, que raptou Perséfone.
autumn breeze por Renae Schoeffel
"vida íntima"
Vou logo explicando o que quer dizer “vida íntima”. É assim: vida íntima quer dizer que a gente não deve contar a todo mundo o que se passa na casa da gente. São coisas que não se dizem a qualquer pessoa. [LISPECTOR, Clarice. O mistério do coelho pensante e outros contos. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2010, p.7.]
I Shall Be Released: Marc Herremans
passando pelo dylanesco, deparei-me com esta bela peça publicitária, muito embora eu não tenha nada a ver com uísques e afins... aqui a versão original do comercial.
contas
O que se consegue saber de um sonho? Aquilo que consegue encontrar uma narrativa. Por isso escrevo sobre meus sonhos aqui, porque desejo entendê-los. Sei que sonhei muita coisa desconexa esta noite, envolvendo pessoas conhecidas ou não. Digamos que as situações, mais do que as pessoas, mereceriam o estatuto de familiares ou não. E do intrincado de situações uma se fixou mais concretamente na memória: eu delegava a alguém o poder de pagar minhas contas, repassando-lhe o dinheiro e os dados bancários. No entanto a operação não dava certo, e o atraso acabava multiplicando o valor da conta a ser paga. O que pensei depois foi qual seria a simbologia disso, por que eu estaria terceirizando a simples (ou não tão simples assim) ação de pagar as contas. Sou uma pessoa que mantém relações complicadas com essa coisa chamada dinheiro, embora paradoxalmente generosa. Digamos que há certos gastos que me incomodam. Mas não creio ter sonhado literalmente com dinheiro. Sonhei com a responsabilidade de assumir o ato de arcar com as minhas contas, aquelas que preciso pagar. Substituindo contas por escolhas (e pensando em ação e consequência), então eu estaria titubeando diante de escolhas que preciso fazer. Mais do que isso: fechar os olhos para contas que são minhas é uma forma de me esquivar delas, ainda que o custo material redobre. No entanto, enquanto meus olhos estão fechados dormindo, abrem-se para essa realidade desconfortável que é o dinheiro passando pelas mãos, por mais asséptica que tenha se tornado a movimentação do dinheiro na atualidade. O que acho estranho em tudo continua sendo delegar o ato de pagar uma conta a um terceiro num terminal de auto-atendimento. Uma coisa que posso fazer perfeitamente bem e sozinha.
um adendo sobre o sábado
Enquanto pensava em nada, sem buscar dar rumo aos pensamentos, lembrei-me de como a rotina de supermercados, shoppings e lojas de eletrodomésticos, pelo menos aqui no Rio de Janeiro, está transformada ― o sábado já não existia, e agora nem domingos ou feriados existem mais para quem trabalha nestes estabelecimentos ― existe apenas o dia de folga, um dia de folga. Com muito esforço, certas datas, como o Natal e o Ano Novo, são respeitas. Então meu post, de todo inocente, refletindo um bem-estar de poder estar em casa no sábado, acabou negligenciando muitos trabalhadores.
Emily Dickinson
A Voz que para mim é um Mar
É para outros chã ―
A Face que nasce a Manhã
Fana sob outro Olhar ―
Que diferença há em Substância
Se o que me é Soma
A outras Finanças só alcance a
Pobreza Extrema!
The Voice that stands for Floods to me
Is sterile borne to some ―
The Face that makes the Morning mean
Glows impotent on them ―
What difference in Substance lies
That what is Sum to me
By other Financiers be deemed
Exclusive Poverty!
DICKINSON, Emily. Não sou ninguém: poemas. Trad. Augusto de Campos. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2008, p. 86-87.
sábado
Finalmente hoje é sábado, e não uma esperança tênue em forma de ilusão rapidamente desfeita pela memória responsável e sempre ativa. Finalmente hoje é sábado, e isso não precisa ser um poema de Vinicius de Moraes.
sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
Dora Ferreira da Silva
AS FORMAS PRISIONEIRAS...
As formas prisioneiras por belas e dementes
esperam seu resgate. Nem veriam
a eclosão
essas duas crisálidas do sono
ocultas em pedras, telas, tramas,
insensíveis ao sol, à chuva fria,
nem júbilo
nem melancolia
sem que as desates.
Medram a medo
na ante-manhã, carentes de teu sonho,
princesas embalsamadas em sucessão estranha,
à espera.
Dora Ferreira da Silva. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.61.
não faz sentido
Sonhos às vezes podem ser dementes, a tal ponto que, pela manhã, concedem apenas um lampejo para recolherem-se às pressas naquela obscura região impenetrável ao dia. Mas o estranho é identificar, mesmo nas imagens mais incompreensíveis, pontos de intersecção incógnitos com o dia. Sonhar a violência, ao modo de uma tela dilacerada de Picasso, é uma forma de dar expressão ao grande mural da violência sobre o qual vão se projetando as sombras angustiadas da vida.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
broken wave (animação)
broken wave from chris allen on vimeo. vale a pena conferir a descrição do vídeo.
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