Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

então certo dia eu quase morri...

Há intervalos em que a vida abre uma brecha. Num deles eu me vi morrendo, ou quase. Faz já bastante tempo, mas a memória de tudo é vivíssima. Abriu-se uma brecha, um intervalo, entre uma cidade e outra, uma vida e outra, era uma passagem, como quando o relógio bate meia-noite e não se sabe se é 24h ou zero hora. Aquele intervalo que não já não mas ainda não é. Um momento zero, nada, nulo, vazio, amplo como o horizonte que se descortinava à minha frente. Abriu-se uma brecha, e então aconteceu. Era tudo muito estranho, mas eu sabia bem o que era. Era abismar-se em alguma coisa jamais experimentada ou sentida. Mais do que isso, jamais suposta ou imaginada. Quem poderá entrever o imprevisível? Medo, muito, daquela súbita vertigem ou desordem. E, na desordem, na vertigem (perceber-me abismando não sei bem em quê), a ordem rápida, imperiosa, para voltar, para a vida evidentemente. Sentir-se morrendo em vida, sentir a vida, não a física, mas a outra, imponderável, escapando. À ordem de voltar, vinda dos confins de mim, daquilo que em mim supostamente sabe onde está a bússola, eu fui voltando. Pois se morrer é inevitável, sentir-se morrendo em vida é alguma coisa que vai acontecer com algumas pessoas, e só com elas, e que pode ser percebida ou não. Por acaso eu percebi, e toda vez que a coisa vai ficando esquisita, eu me lembro daquele dia, da luta travada, em pé num ônibus, olhando o nada, a paisagem, abismando-me em mim mesma. Eu estive lá, não sei bem onde, e voltei. 

4 comentários:

ThinkFloyd61 disse...

Olá! Maurício (Blog ThinkFloyd61), quem vos fala. Meu contato, antes de tudo, por gratidão ao seu prestígio, mantendo-se fiel ao nosso blog do Pink Floyd e músicas em geral. Também para manifestar minha disposição em corresponder à qualquer interesse de sua parte, seja opiniões, sugestões ou curiosidades. Muito obrigado. Abraço.

Mariana disse...

Oi, Maurício, não precisa agradecer: gosto do seu blog, você presta um grande serviço aos fãs, sempre que posso vou lá, adoro a banda. Qualquer hora apareço com mais vagar.

Abraço.

sonia disse...

Pareceu-me que aqui vc vai dizer as coisas como se estivesse num para-quedas, numa leveza só....rsrs
Também já senti "a coisa" muito esquisita em 1989/90 quando conheci o inferno e soube que ele é aqui mesmo. Sobrevivi, mas até hoje tenho sequelas, pois somatizei muita coisa na época! O preço foi alto. Não sabia me defender do sofrimento intenso.

Mariana disse...

Essa experiência foi das coisas mais esquisitas que me aconteceu: veio sem ser chamada, como se tivesse vindo do nada, e a minha reação foi de sobrevivência... foi uma coisa tão forte que expus com cautela.

Eu não tenho dúvida de que o inferno é aqui mesmo, e a ele somos lançados sem aviso prévio. Já fui e voltei do inferno várias vezes, a última vez, mais recente, deixou uma sombra de tristeza em mim que estou lutando para dissolver. Não é fácil. É inevitável somatizar, o fardo é maior do que os ombros podem suportar. Entendo perfeitamente quando você diz que "o preço foi alto". É o próprio corpo que paga.