Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Cildo Meireles: Babel e Marulho


Foi no mestrado que ouvi falar de Cildo Meireles pela primeira vez. Havia lido um texto que fazia alusão ao um trabalho dele, e comentei algo assim com meu orientador: o texto fala de um tal de Cildo Meireles. Meu orientador, gatilho rápido, me puxou as orelhas, num jeito muito dele e ágil de falar e pensar: Deus do céu, não sabe quem é Cildo Meireles, um dos maiores artistas plásticos deste país! Pois era este o depoimento que eu dava com a expressão um tal de. Ah, como é doce a ignorância! Até hoje não consigo deixar de rir com a lembrança dessa cena, o cômico de tudo, como a linguagem trai. Mas tomei tento, nem foi essa a primeira vez que me surpreendi (ou fui surpreendida) na minha ignorância. A fala dele era clara, nunca me esqueci. De fato, do pouco que entendo de arte, o trabalho de Cildo Meireles é impactante, e quando fui ao Museu de Arte Contemporânea de Inhotim-MG, tive oportunidade de conferir uma galeria com três instalações dele, algo que rendeu dois posts (Desvio para o vermelho e Através). E aí justifico o vídeo acima, cheio de ruídos. O mundo está repleto deles, e já não me lembro quem me falou uma coisa assim: que é bom ter um rádio em casa, pois à noite, entre as estações, é possível captar os ruídos, os sons do universo...

2 comentários:

sonia disse...

Interessante essa última frase do seu texto. O problema dos rádios modernos é que nem dá pra explorar o espaço entre as estações: são todos digitais! (que saudade do velho ponteirinho!)

Mariana disse...

Tens razão... faz tanto tempo que não ouço rádio ou tenho um em casa que nem dei por essa transformação, do botão que girava em busca das estações...