Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 15 de janeiro de 2011

Shifting (VFS)


As fábulas, salvo engano, com suas duras e inflexíveis lições de moral, não humanizaram o animal ao emprestar-lhe elementos humanos; ao contrário, elas brutalizaram/animalizaram o homem. Aqui, nesta curiosa inversão homem-natureza, que guarda parentesco com as fábulas, no animal encontra-se o pior do homem. P.S. Ou será ainda a projeção do pior do homem no animal?

2 comentários:

Jamil S.P. disse...

Interessantíssimo e muito bem realizado esse curta, hein? MUITO bom!
Quanto às fábulas terem brutalizado ou animalizado o homem, não sei se entendi bem o que você disse (certamente não). Ainda não li Esopo, mas apenas La Fontaine. Este escreveu lindas fábulas, em forma e conteúdo. Nelas, vejo o desejo de aperfeiçoamento humano, através da observação da natureza, sobretudo dos animais e até dos insetos. A meu ver, muito louvável a preocupação ética, moral e filosófica que permeia as fábulas de La Fontaine (sem contar a sua enorme beleza literária). Imagino que as de Esopo sigam a mesma linha.
Então, se talvez não se refira a estes autores, a quais estaria se referindo? (só para eu me situar, pois gostei muito do post, do vídeo e de suas palavras, mas acho que destas não consegui captar o sentido mais profundo).

Mariana disse...

Prezado Jamil, nem eu sei se entendi bem o que falei, foi meio uma intuição, fruto de algumas conversas esparsas com um amigo da filosofia, daqueles que bagunçam o saber bem posto.

Não consigo diferenciar bem o Esopo do La Fontaine, tenho inclusive uma edição caprichada deste aqui em casa. Bem, sei que um foi grego e o outro francês. Li pra valer o Lobato (as "Fábulas") e o Millôr (as "Fábulas fabulosas"), conforme estes se apropriaram daqueles. Então eu posso estar cometendo uma grande injustiça com as qualidades literárias desses escritores tradicionais. Mas me incomoda a rigidez da moral, dos ensinamentos, aquela coisa da cigarra e da formiga, que aliás o Lobato revisa, propondo uma outra versão. E aí que o amigo da filosofia falou isso, essa coisa meio perturbadora de pensar as fábulas por outro prisma. E aí que eu juntei com a animação sombria...

O curta, como você disse, é muito bom, e faz pensar coisas sobre o "ser humano", e remete às fábulas, na medida em que ocorre uma estranha mistura entre homem e animal. E foi nesse sentido que eu falei das fábulas, como narrativas que misturam elementos humanos e animais para um fim edificante. Só que, no curta, o que acontece é outra coisa... Bem, quanto mais eu falo, mais me complico.

De qualquer forma, obrigada pelo comentário, vou ver se adquiro alguma edição decente das fábulas do Esopo.