Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Sérgio Sant’ Ana Ortiz

Ainda bicho
              a Manuel Bandeira

Hoje mesmo vi um bicho
Ele ainda cata comida
No chão de um terreiro
Entre os detritos que esqueci.

Quando acha alguma coisa
Ele não se satisfaz:
E joga o lixo pelos ares.

O bicho não é um cão,
Não é um gato,
Não é um rato.

O bicho, sem deus, ainda é homem.

As flores do precipício, p.4 (enviado pelo autor)

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