A proposta reinveste sobre o que Wim Wenders fez em Quarto 666, tomando-o como entrevistado sobre o futuro do cinema. Mas se então o debate girava em torno do cinema e a emergência de novas mídias, como a televisão e o VHS, a possibilidade de assistir o filme em casa, o que conferia uma tônica de pessimismo às falas dos entrevistadoss, conforme o próprio Wenders pontua, sua posição, cerca de 20 anos depois, é otimista em relação ao cinema, otimista demais talvez, e o alvo que ele tem em mira é bastante problemático: "...as pessoas precisam do cinema, precisam desse instrumento, mais do que qualquer coisa. Todos nós sabemos que a 'palavra', a 'palavra falada' ou a 'palavra escrita', pertencem à cultura do passado. E que o futuro de nossa cultura é a 'imagem'. E este futuro recém começou." Há muito que se anuncia o fim do conhecimento centrado na palavra. A conclusão da entrevista é decepcionante, vinda de um cineasta como Wim Wenders, cujo brilhantismo da obra dispensaria esse triste papel de advogar em causa própria.
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
sábado, 12 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
O Quarto do Filho (Nanni Moretti, 2001)
Pessoas sofisticadas que não sabem o que fazer diante do que não entendem, ou relutam em aceitar. Se o principal personagem deste filme é a ausência, o súbito vazio deixado por uma vida que se vai sem explicação, o quarto do filho é o lugar dessa ausência, e o divã o lugar onde a culpa (não) se resolve. O divã, a experiência da cura pela palavra que o pai conduz com destreza e segurança, atrela-se, pelo acaso, à morte acidental do filho, e o pai se desnorteia com isso, não entende mais sua profissão, pois passa a vê-la como instância da culpa que sente: a culpa por não conhecer bem o filho, a culpa por não ter passado mais tempo com ele, a culpa pelas escolhas que fez, ou acredita ter feito. Em todo caso, os papeis analista/paciente são subitamente invertidos: é o analista que precisa do divã para continuar seguindo sua vida. Mas o que ele faz/fazia pelos outros não consegue fazer por si próprio, e os três seres da família que continuam vivos parecem não encontrar mais sentido em viver juntos. Na cena final, na praia, cada um caminha em uma direção, deixando tudo num plano vago e indefinido. Se o divã funcionava para fora dos limites da casa, ele desaparece como possibilidade de resolver o drama familiar que se instala, a ele atrelado. Todos são cultos, sofisticados, comunicam-se com elegância, usam a linguagem de forma fluida, mas choram em segredo. Após a missa pelo filho, o pai questiona vivamente o provérbio cristão mencionado pelo sacerdote, do ladrão que entra na casa de surpresa, levando o que encontrar, uma outra forma de falar de acaso, destino e fatalidade. Ele questiona vivamente o dito cristão, mas antes de sua perda dolorosa tentava, de alguma forma, fazer seus pacientes aceitarem suas vidas, suas limitações, num plano fortemente intelectualizado. Contradições são apontadas pelos próprios pacientes, mas o que tira tudo dos eixos é o acaso, o imprevisível, a dor pela perda, acentuada pela culpa. O divã falha, a linguagem só tinha valor, e um valor elevado, enquanto aquela família era feliz. Mas então é o próprio pressuposto do divã que está sendo posto em causa. O quarto do filho dá notícia do vazio com que lida todo aquele que se dispõe a fazer análise.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Rainer Maria Rilke: Sonetos a Orfeu
II, 3
Espelhos: o que sois ninguém se viu,
em sua essência, retratá-lo.
Vós que vazais um intervalo
no tempo com as peneiras do vazio.
Perdulários das salas ocas esqueceis,
quando anoitece, como florestas distantes,
e o lustre ― cervo de dezesseis
pontas ― devassa com as luzes penetrantes.
Talvez estejais cheios de pinturas.
Umas parecem em vós incorporadas ―,
outras dispensais com um brilho indeciso.
Mas as mais belas ficarão guardadas,
até que lá do alto, em suas feições puras,
penetre, livre e lúcido, Narciso.
RILKE, Rainer Maria. Coisas e anjos de Rilke. Trad. Augusto de Campos. São Paulo: Perspectiva, 2007, p.159.
Genesis - The Grand Parade Of Lifeless Packaging
Um post do Zé Alberto trouxe-me à lembrança o fantástico álbum conceitual do Genesis, The Lamb Lies Down on Broadway, de que destaco essa música.
vida de passarinho
Numa turma de 6º ano, quando fui introduzir mitos, comecei por esboçar uma espécie de diferença entre realidade e ficção, me valendo de tudo que lembrava disso, mas usando linguagem própria. Tentava dizer que a relação com a "realidade" é, em maior ou menor grau, mediada, e com isso perpassada por algum componente de fantasia. Isso o que recordo da minha fala. Então um garotinho, que eu particularmente estimava, me interrompeu e disse: "Professora, não fala essas coisas não que eu fico nervoso" (e foi engraçado o jeito com que ele disse isso, impossível traduzir aqui na escrita). Parei na hora e olhei para ele curiosa, afinal "essas coisas" era o conteúdo que eu estava explanando. Ele disse então alguma coisa sobre sentir medo à noite, na hora de dormir, ficar agitado, nervoso, e mais outras coisas que eu achei melhor não entender. O que eu entendi, da voracidade de leitura e filmes daquela turma, é que eles estavam alimentando intensamente a imaginação com coisas que iam além da capacidade de assimilar. O imaginário infantil é delicado, mas eles vinham me contar sobre filmes que eu mesma não consigo assistir, e alguns relatavam inclusive "verem coisas". De modo que certa feita perguntei-lhes se os pais deles tinham conhecimento do que eles estavam assistindo. Tratava-se de uma espécie de hiper mediação, na falta de termo melhor. Se este post diz muito do meu tatear/hesitar ao lidar com o público infantil, na condição de professora acostumada ao ensino médio e ao terceiro grau, percebo, pelo menos, que não se apresenta uma obra, um filme, um autor para uma criança sem pensar nas consequências. As aves que hoje gorjeiam na infância não são aquelas que pontificavam na minha, no sítio de pica-pau amarelo. Talvez esta a maior dificuldade: as aves não podem ser as mesmas, pois as narrativas são outras.
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
Boca Livre - O Trenzinho do Caipira
P.S. A melodia de Heitor Villa-Lobos recebeu letra de Ferreira Gullar (aqui)
um verso de Drummond
Eu sempre me lembro deste verso do Drummond, "sempre esquecidos de alguma coisa", de "Um boi vê os homens" (postado aqui), seu poema que mais aprecio. É que eu sempre estou esquecida de alguma coisa.
ouvido na infância... ouvido de infância
[imagem obtida aqui]
...que se a gente aproximasse o ouvido de uma concha, escutaria o barulho do mar. Não havia mar onde eu morava, mas havia moluscos, como em qualquer parte, e imaginação. Só muito tempo depois vim descobrir o conteúdo daquelas peças calcárias que encontrava comumente no lugar onde nasci e passei a infância. Escutava o barulho do mar pondo a concha ao ouvido? Criança escuta o que quiser. Quando conheci o mar, na adolescência, não me apaixonei nem nada, sequer o notei, pois a moda era ir à praia. Não o vi, mas ele me viu, pois fiquei muito tempo na água, o calor era forte, experimentei uma força que não conhecia, e acabei desmaiando no dia seguinte ao ver no espelho meu rosto alterado pelo sol. Isso me afastou de praias. Eu descobri o mar quando fui morar no litoral e me dei conta de que não precisava ir à praia para sentir o mar. Bastava tomar um ônibus à noite e ir em direção à praia, sentar em qualquer lugar e, quase indiferente, saber que o mar estava ali, fazendo companhia. Mas faz bem pouco tempo que liberei meus sentidos para perceber o barulho inconfundível do mar. A lembrança do episódio da concha do molusco é uma pérola da infância, esquecida por tanto tempo, e agora secretada pelo mar.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Manuel Bandeira
O rio
Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas nos céus, refleti-las.
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranquilas.
BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. 20.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993, p.203.
O espelho cego - Cildo Meireles
imagem obtida aqui
"O trabalho produzido em 1970 apresenta uma textura cinzenta, enquadrada em uma moldura. A observar a peça, o espectador é confrontado com uma massa que, de modo ambivalente, está entre a forma e o informe. Acostumados com a ideia de que um espelho devolva nossa imagem tal como é, vivemos situação similar à do protagonista do conto "O espelho", de Guimarães Rosa. (...) A obra não apenas sugere que o espelho seja cego por ser incapaz de retribuir como esperado pela retina. É a própria visão do espectador que, pela vivência do choque, se vê ameaçada por uma contemplação que provoca tensão na estabilidade do olhar. (...) O espectador, se sustentar o olhar, se perguntará pelos limites da própria percepção, limites que estabelecem uma impossibilidade de deixar fluir a visão. O que está sendo visto, o que pode ser visto? É a própria visão do espectador que percebe seu limite, sua incapacidade de ver. A obra aponta para uma forma de subjetividade que exige atenção. Contrariando as heranças vindas do pensamento cartesiano e do Iluminismo, encontramos aqui a projeção da imagem de um sujeito que não tem condições de organizar a produção do conhecimento. Essa limitação faz com que se volte sobre si, atingido pela própria incompreensão. É um sujeito que, descobrindo uma distância entre sua auto-imagem habitual e inesperadas imprecisões, está aquém de si mesmo."
GINZBURG, Jaime. Cegueira e literatura. In: VECCHI, Roberto; FINAZZI-AGRÒ, Ettore. Formas e mediações do trágico moderno: uma leitura do Brasil. São Paulo: Unimarco, 2004, p.89-90.
hipocrisia
A hipocrisia é tanto mais detestável quando se descobre a facilidade com que se recorre a ela, quando, olhando para si próprio, é difícil admiti-la como atitude. A hipocrisia é um desfavor à saúde, e por uma razão bem simples: o hipócrita não respeita a dor do outro. O hipócrita é aquela criatura mediana que, tentando se fazer passar pelo bom-mocismo, adere como figurante ao teatro das convenções, e fica na caricatura. É um aviltamento, uma vulgaridade.
um ato de liberdade
Chega um momento em que o cansaço avizinha-se da estafa, e torna-se paralisante. Há livros, muitos, para ler, mas falta força para envolver-se com a narrativa; há filmes interessantes a assistir, mas são apenas uma lembrança remota; há coisas interessantíssimas na blogosfera para ler e comentar, mas o cansaço dirige a atenção para o que pressupõe o princípio da parcimônia. Então não é um estado interessante. Vejo diante de mim mais um ano de trabalho exaustivo, e já inicio cansada. Há um ano atrás conheci o que era a estafa: creio que ainda não me refiz. Sem contar que isso não diz respeito apenas ao trabalho, mas à própria vida, quando se descobre o que a Clarice Lispector diz em "O ato gratuito", ao situar o profundo cansaço pela luta: "Eu precisava ― precisava com urgência ― de um ato de liberdade: do ato que é por si só. Um ato que manifestasse fora de mim o que eu secretamente era. E necessitava de um ato pelo qual eu não precisava pagar. Não digo pagar com dinheiro mas sim, de um modo mais amplo, pagar o alto preço que custa viver." (A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.410). O que atenua isso tudo é escrever, pois aqui não se trata de uma pena de aluguel ― não escrevo por obrigação, mas por necessidade, por gosto e prazer.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
O que os outros sabem de nós: Nietzsche
“Aquilo que sabemos de nós mesmos e que temos na memória não é tão decisivo para a felicidade de nossa vida como se pensa. Um dia cai sobre nós aquilo que outros sabem (ou acreditam saber) de nós ― e então reconhecemos que isso é mais forte. É mais fácil lidar com sua má consciência do que com sua má reputação.”
NIETZSCHE, F. A gaia ciência. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p.91.
domingo, 6 de fevereiro de 2011
Assinar:
Postagens (Atom)


