Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quarta-feira, 9 de março de 2011

Admirável Gado Novo


Não sou fã de Zé Ramalho, mas não escapa o parentesco desta canção com o romance Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, livro tão impactante que faz o leitor acreditar piamente que o mundo não passa de um sutil sistema de castas mantido à base de narcóticos controlados, a tal ponto que a pessoa nem chega a suspeitar que pode haver um modo diferente de viver. Zé Ramalho apanha a deixa de Huxley, e num curioso emprego da noção de dêixis, associada ao lugar comum inteligência de rebanho, dirige-se diretamente ao grupo supostamente vítima da alienação, numa engrenagem complicada de desmontar, porque sente a ferrugem lhe comer: "Vocês que fazem parte dessa massa / Que passa nos projetos do futuro." Será ouvido? Não, ou melhor, ele é ouvido por quem desconfia dos mecanismos da alienação, o que não invalida a intenção de se fazer ouvir: "O povo foge da ignorância, apesar de viver tão perto dela." Vale notar que a canção data do final da ditadura, época sombria em que o povo marcado fazia as vezes de povo feliz. Cássia Eller deu roupagem nova à canção (aqui).

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