Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quarta-feira, 9 de março de 2011

Madalena a Jesus - Henrique Manuel Bento Fialho

Confessa que te assustas quando olhas a morte
e te apercebes do quão insignificantes somos.
Confessa que, por vezes, no silêncio
das quatro paredes em que adormeces,
olhas o tecto na escuridão e lembras-te
que pode ser a última vez que o estás a olhar.
Confessa que sentiste o deserto
como uma chapada de verdade,
que o mesmo sentiste quando olhaste o mar,
não com olhos de ver, mas com olhos de aceitar.
Confessa as noites em que o céu estrelado
se dobra sobre a tua cabeça,
parecendo-te uma coisa tão bela quanto aterradora,
porque aquela constelação imensa de astros
é deus a escarrar a nossa ínfima condição.

Manuel Henrique Bento Fialho. A dança das feridas. Edição do autor. Portugal, 2011. 

Recebo de Portugal A dança das feridas, de que tomei conhecimento pelo blog antologia do esquecimento, administrado pelo poeta que me enviou o livro. Aqui é possível encontrar uma breve apresentação do livro e de sua proposta pelo autor, e o índice revela  tratar-se de poemas de amor entre casais pertencentes a diferentes circuitos culturais e artísticos, tendo em comum a civilização ocidental. É um livro que exige, portanto, os bastidores desses circuitos (ou os circuitos desses bastidores), e que pede uma leitura meditada. Como tal, a proposta se distingue pela originalidade com que aborda o amor, encenando-o com uma versatilidade admirável, do carnal ao espiritual. Portanto, este post é apenas uma apresentação ligeira e meu agradecimento ao Henrique, que se dispôs a enviar o livro antes mesmo que fosse acordada a forma de reembolso dos valores. É que o desejo de adquirir determinados livros vale a poesia que eles têm a oferecer. No caso específico, trata-se de uma edição limitada a 150 exemplares, únicos, autografados conforme queira o leitor, e que ainda podem ser adquiridos através do e-mail universosdesfeitos@yahoo.com.br. Ao Henrique, meu obrigada e meu abraço transatlântico. Voltarei aos poemas com mais vagar, explorando outras facetas desse estranho sentimento chamado amor. 

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