Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quarta-feira, 9 de março de 2011

viagens

Viagens têm um estranho poder: alguma coisa do que é alteridade no "eu" é confrontada, e volta-se com a sensação de que uma transformação intensa se deu num intervalo curto de tempo: como se o tempo tivesse sido subitamente intensificado. Então escrevi isso a uma amiga: "Voltei mais leve, se é que posso dizer assim. Não sei se a insustentável leveza do ser, mas quem sabe um novo modo de sentir-se magra." E, só agora o vejo, escrevi/disse sentir-se, e não sentir-me. Pensei na associação entre leveza e magreza quando um outro amigo, ao falar da defesa, disse que eu estava mais leve, em todos os sentidos. Intui que uma das maneiras de estar leve seria tirar partido da própria magreza, já que era tudo o que eu tinha então, além da sensação do percurso trilhado, e tudo o mais estava sufocando/oprimindo demais. E comecei a exercitar isso, pois afinal é-se corpóreo em quase tudo que se vive. Era mais ou menos assim: já que possuía os pré-requisitos, tinha um caminho por onde começar. Eu tinha esses, a magreza e certa disposição íntima de desligar-me um pouco mais das coisas, já em curso, e não outros: cada um precisa se haver com o que tem. E vem funcionando. Voltei mais despojada de mim, com menos pressa, mais paciência. Força também, quem sabe, de ter novamente enfrentado o desafio do avião, vivenciando uma situação nova: apesar do receio que ainda me toma de assalto, e que se condensa na hora de entrar na aeronave, uma vez lá em cima consigo vivenciar coisas muito agradáveis, interrompidas, é claro, pela travessia de áreas de instabilidade e pelos episódios de turbulência. Mas não é assim na vida? Indescritível a leveza que sinto lá em cima, uma vez vencidos, como na renovação de um rito, os obstáculos íntimos que me fazem ter receio de entrar na aeronave. 

Aeroporto de Brasília, 08/03/2011

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