Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quinta-feira, 10 de março de 2011

"dotôra"

Acabei de atualizar o lattes, fazendo lá constar que agora sou "dotôra". Não que isso tenha mudado qualquer coisa de substancial em mim. No meio da confusão que tem sido minha vida, a última coisa de que me lembro é o título. Não pertenço ao grupo dos que se autointitulam doutores/as por mero hábito do ministério (ou monastério): médicos, advogados, políticos: os doutores por convenção que grassam no país dos bacharéis, dos quais Oswald de Andrade fez troça no Manifesto da Poesia Pau-Brasil: "O lado doutor, o lado citações, o lado autores conhecidos. Comovente." [aqui] Trata-se de fugir da erudição de verniz e admitir que o título, além de representar a culminância de uma etapa longamente ensaiada (desde que escolhi Letras sabia que iria me doutorar em Literatura Brasileira), representa melhorias efetivas de salário. Amigos brincaram de forma até surpreendente com o título, mas eu levei na esportiva. O que conta é que consegui o que eu queria: fazer um doutorado que representou uma possibilidade efetiva de aprendizado e crescimento pessoal, numa instituição de minha escolha. Acho que as minhas fichas ainda não caíram, só agora começo a perceber o que efetivamente conquistei.

7 comentários:

hmbf disse...

Parabéns.

Luiz disse...

Acho que o melhor foi a travessia, o ponto de chegada pouco importou para v. Tenho certeza que v. fez todas suas descobertas percorrendo o caminho e isso é lindo. Não estive na sua defesa, mas tenho certeza de que em momentos culminantes de sua travessia estive contigo, assim como v. tem estado comigo. Um beijo!

Mariana disse...

Luiz, que comentário mais lindo! E que generosidade em suas palavras! A travessia, nossa, segue, e me alegra a confiança que suas palavras transmitem, ter você como companhia. Só a gente sabe o valor de certas apostas, o quanto de intuição e faro fino elas implicaram. Pode contar comigo! Outro beijo!

Henrique, obrigada, a vida segue.

josépacheco disse...

também me parece: eis o espírito. quando chegamos, ficamos, até, um bocado à-toa: «e agora? acabou, já não há mais...?»; não no seu caso, é claro. a avaliar pelo espírito, após um breve repouso da guerreira, deve estar a planear novas travessias...

Tinzia Menezes disse...

Parabéns atrasado, Mariana. Fique feliz com a sua conquista, ser doutora em algo tão lindo quanto a literatura é motivo para festejar... e muito! Fiquei com inveja azul de vc. rsrs

Beijo!

Mariana disse...

José Pacheco: como continuo apaixonada pelo Sérgio Buarque, não quis deixar a peteca cair, e já estou a tocar, com meu orientador, um novo projeto. Preciso apenas de energia para levar adiante a nova empreitada em que me meti, pois meu orientador parece incansável.

Mas o que queria dizer é isso também: "o espírito e a letra" é o título de um artigo de Sérgio Buarque discutindo uma tradução de Thomas Mann no Brasil: o espírito e a letra: parece caber tanta coisa aí.

Mariana disse...

Tínzia, obrigada :) você captou bem o espírito azul da minha alegria!

Outro beijo!