Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 12 de março de 2011

Nina (Heitor Dhalia, 2004)


Nina é uma adaptação sombria de Crime e castigo, não fosse a expressão adaptação sombria uma redundância no caso do romance em questão. Assisti ao filme antes de ter lido o livro, e isso não fez muita diferença: o filme prescinde do conhecimento do livro, tornando-se uma transposição para as ruas de São Paulo do drama criado por Dostoiévski. Nina é e não é Raskólnikov, ela passa fome em virtude de sua condição social e por nutrir ideais que não são os mesmos de sua geração. Os dois papeis principais são muito bem interpretados por Guta Stresser (Nina) e Myriam Muniz (Dona Eulália), esta beirando a perfeição. O que parece digno de nota na proposta de Heitor Dhalia é conceber um filme na contramão do cinema de digestão fácil produzido/consumido no Brasil. Mesmo seu posterior O Cheiro do Ralo, estrelado por Selton Mello, parece trair uma vocação mais comercial. Nina é um filme que põe em cena uma moça inteligente e bonita passando fome numa grande metrópole: a protagonista não tem nada de Macabéa. Ela é extremamente lúcida e inteligente, mas isso não impede que ela enverede por uma via fantasmática e alucinatória. De uma forma ou de outra, são colocadas a nu engrenagens difíceis de contornar, e este é o ponto-chave do filme, ao focalizar o modo como essas engrenagens vão criando novas subjetividades, que alucinam: é na subjetividade dilacerada que a crítica social se faz, exatamente como em Dostoiévski. Então, para um país de contornos sociais tão problemáticos como o Brasil, pensar na atualidade de filmes como Nina é pensar que o panis et circensis largamente oferecido pode estar escamoteando fins que visam justamente manter as condições que engolem jovens da metrópole como Nina ou nordestinas mal alimentadas como Macabéa. Segue um pequeno comentário (aqui).

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